segunda-feira, janeiro 20, 2014

Rachel Ignotofsky

Há tempos não fazia uma descoberta de ilustrador, assim, que me vicia.

Depois de Irina Vinnik, Bansky, Jonathan Yeo e Arthur de Pins vi gente boa mas nada que eu achasse tão interessante. Também conta o fato de eu estar vivendo minha segunda vida e ter largado criação e direção de arte, mas isso é um detalhe.

Rachel Ignotofsky faz ilustrações para a Hallmark Greetings Co. e também trabalhos freelance. Além de ilustrações muito divertidas para casais, eventos e empresas, ela faz uma série de posters sobre botânica, citologia e anatomia. Estudar fica muito mais estiloso com o trabalho dela.

Essas são as que vi primeiro, mas vale a pena visitar o link (no nome dela, acima) para ver outras bem divertidas:





Gostaria que também tivesse ilustrações sobre endócrino e genito-urinário, porque são bonitos marcadores de capítulos que usei em meus cadernos. :)

sábado, outubro 19, 2013

Verdade é como filho: cada um tem o seu.

 Almoço festivo. Maria, Antônia, Joselina e Griselda conversam em meio aos afazeres da cozinha. Com a algazarra que fazem bem se diria serem umas vinte mulheres, mas são apenas essas senhoras nomeadas.
O modo como seria preparada a salada gerou certa divergência. Joselina foi taxativa:
- Nada de temperos, a gente lava com cuidado as folhas de alface, descasca e corta o tomate e só.
- Que horror, Lina! Coisa bem sem gosto nenhum! Joga logo um fio de azeite de oliva que é bom pro coração! Minha Carol que disse.
- E o que tua filha sabe? Nunca cozinhou na vida, Antônia!
- A Carolina é a melhor aluna da faculdade de Nutrição! Sabe tudo e não precisa cozinhar pra isso. O outro dia um professor viu no currículo dela que ela tinha um curso especial de grãos integrais e queria que ela fosse pro laboratório dele trabalhar. Mas imagina! A professora, doutora não sei das quantas, quase enlouqueceu, não deixou a Carol ir. Tão brigando pela minha filha, tão boa ela é... vivem pedido coisas pra ela, colocando ela pra trabalhar nos projetos importantes... Ela é uma referência pros colegas.
- Parece o Luiz Roberto. O menino mal começou na veterinária tá lá fazendo cirurgia em boi! O pai tá todo orgulhoso. Dele, e do Dudu, que disse ontem que vai ser engenheiro.
- Mas, Maria, o próprio Luizinho me disse, semana passada, que só foi assistir à tal cirurgia.
- Então, Griselda! Foi o que eu disse, tá operando os bichos, já! E também faz o maior sucesso com os professores.
- Esse gurizada de hoje... Parece que já nascem sabendo mais que a gente. Mas eu vou levando essas saladas pra mesa.
- Espera, Lina! Não tá temperada!
- Não é pra temperar, deixa assim. O Carlinhos mandou eu baixar os temperos, disse que sal dá pressão alta, que a gordura do óleo entope as veias e sei lá mais o quê. Isso sem contar a quantidade de bactéria e micróbios que vem numa salada mal lavada, um perigo! Levo assim, e cada um põe o que achar melhor.
 E lá se foi Joselina com as vasilhas de salada. Quando voltou, o assunto eram os filhos brilhantes de cada uma.
- Então, Lina, teu filho tá trabalhando, já?
- Sim, o Carlinhos tem essa vocação de cuidar de gente. Tá trabalhando direto no posto perto de casa e nos fins de semana tira plantão em Capoira Alta, perto da casa da vó dele. Uma bênção esse menino, os pacientes adoram ele!
- Mas e os teus, Griselda? 
- Os meus filhos não são brilhantes. O João e a Mara, estudam um pouco, fazem festa com os colegas e de vez em quando pegam exame. São médios. Medíocres até. Mas vão se formar no tempo certo e vão ter um emprego decente. Acho que é isso que todos queremos para nossos meninos, né? 
 Foi como se ela tivesse dito uma coisa absurda, horrível, criminosa. 
 Mas era verdade, aliás, a única verdade completa que tinha sido dita naquela reunião. Para indignação das demais amigas, Griselda era super sincera.
E trocaram de assunto. Vai que Griselda começasse a falar verdades sobre os filhos delas também.


quinta-feira, janeiro 24, 2013

Pesadelos

Lembro de dois pesadelos horríveis que tive...


Com cerca de 4 anos, imaginei que um homem comum escalava o muro de nosso vizinho e cravava uma faca nas costas de minha mãe, que estava de costas para ele, ela morria na hora e na frente de meu pai, minhas irmãs e eu. Era tão triste, tão real, que me apavorava, era possível. Isso sim dá medo: pessoas possíveis, lugares possíveis e a mãe da gente... nada pode ser pior!

O outro pesadelo de que me lembro, era recorrente, e parou  de se repetir quando  cresci: pontos brancos, muito pequenos, vinham do infinito na minha direção, o fundo preto e sem nenhum som...só isso, me angustiava de uma maneira que eu tinha medo de voltar a dormir e sonhar com isso. Depois, e estou falando do início dos anos 1990, criaram um protetor de tela que é bem o que eu sonhava, parece um pouco que viajamos por entre estrelas, meio star wars mesmo. A animação não me assusta tanto, mas o sonho era terrível. Vá entender.

Fotógrafo do Terror

Joshua Hoffine é um artista - fotógrafo do imaginário popular de horror - cujo projeto mais recente (segundo seu blog) busca dar "vida" aos pesadelos mais medonhos das crianças.

Confesso que não me identifiquei com o propósito, meus pesadelos não tinham monstros, lobisomens, bruxas e muito menos zumbis. (Leia sobre isso aqui).

Mas o importante é que as obras são lindíssimas... feias, mas perfeitas (entende?). Selecionei as que combinam mais com meus medos de infância - ou de hoje - mas veja muitas outras no site de Joshua. Clique para ampliar.

Para começar: a menina encontra a casa da bruxa de João e Maria:

o verossímil palhaço assustador:


"alguma coisa se mexeu no armário":


o terrível mãe morta:


um auto-antropófago:


parece que tem mais alguém na casa:


Aproveite e veja outras galerias, como esta com Jack Estripador (muito boas):


 

Veja as outras, vale a pena!

quinta-feira, outubro 25, 2012

ENXERGAR O MUNDO

Saiu de Andorinhas do Sul para estudar. Cursava o primeiro ano de faculdade quando completou 17 anos. Orgulho da família, na colônia era tido como um prodígio.

Interessado, logo se envolveu em projetos, conseguiu um estágio para custear as viagens a congressos. Colocou-se a meta de realizar um intercâmbio antes de terminar a faculdade.

Foi.

Ficou fora do país por um semestre. 

A avó, longe do único neto, sofria. Queria mandar carta, pediu o endereço quando ele ligou pra casa. "Demora muito, vó. É melhor a gente usar chat, fala com algum vizinho pra ensinar vocês." Ela não entendia. "Pela internet, vó. Com o computador, sabe? É bem fácil." Não sabia. Não gostava de mexer naquela coisa, tentou e não deu certo.

Quando voltou, já era início de período letivo, nem pôde ir pra casa ver a família. Recebeu encomenda de compotas, queijo, salame e uns tricôs pra usar ainda neste inverno. Ligou pra casa, gostou muito, agradeceu.

Tinha uma relação bonita com a família, mas agora era homem do mundo. Apresentava trabalhos e já começava a ensinar outros estudantes em oficinas e workshops. Destacava-se. Era bom naquilo.

Um acidente. O caminhoneiro dormiu, atravessou a pista e bateu de frente na Variant dos pais. "O condutor do veículo morreu na hora, a passageira, que estava no carona, foi socorrida e levada ao hospital, mas não resistiu. O motorista do caminhão nada sofreu". 

A avó ficou sozinha. Daria tudo a ela, decidiu.

Concordaram facilmente. O acordo era simples, ela largava tudo para morar com ele mas iriam seguido para ver o pessoal de Andorinhas e visitar o cemitério. Entendiam-se muito bem.

Ter companhia quando estava em casa era muito bom. Sentava na varanda com a velhinha, reparavam na vizinhança e riam juntos.

Amava a avó, queria mostrar o mundo a ela. Paralelo ao mestrado dava aulas de "iniciação ao mundo real", como ele brincava ao contar para os amigos. Demorou um pouco, mas com o tempo ela pesquisava receitas novas e até aprendia alguns artesanatos nos vídeos do site do programa de tevê. Ela se esforçava pelo netinho. "Menino bom".

Colocou a avó em aulas de hidroginástica. Ela não gostava, dizia a ele, mas frequentava.

Pacientemente acolhia todas as novas ideias do rapaz. Ele queria ajudar.

Já era hora  de dar um novo passo. Contou a novidade com os olhos cheios de emoção: o doutorado seria na Inglaterra, tinham que providenciar o passaporte da velhinha. Ela ia pro estrangeiro!

Ela recebeu a notícia em silêncio, os olhos cheios de outra emoção. Pegou a mão do neto entre as suas. Tremia um pouco. Chorava. "Meu filho, vai. Mas a vó quer ir pra casa."

Explicou que era só por poucos anos, quando menos esperasse tinham voltado. E ela viajaria, conheceria lugares. Fariam um tour pela Europa. "Lá é tudo perto, vó". Ela não queria contrariar o neto, mas não mentiu.

Passou dois dias triste, procurando conselhos de todo mundo, precisava uma solução. Conversou de novo com ela, desistiria se ela não fosse junto. Estava muito idosa e não tinha a mais ninguém. 

Queriam se entender, mas não estava tudo bem.

Pela primeira vez desde que se mudara para lá, ela foi firme. Mas doce como sempre. Ele seria feliz se seguisse seu caminho, ela seria feliz se voltasse pra sua casinha, já a tinha pedido de volta aos inquilinos. E um estaria mais feliz se o outro também estivesse, era simples.

"Meu querido, esperei que você se formasse para voltarmos pra casa. Então, você continuou estudando e esperei de novo. Pensei que você poderia trabalhar lá, talvez, com tanto estudo, virasse nosso prefeito, consertasse a cidade, fizesse escolas bonitas. Vejo que você se esforça pra não perder contato, manteve a promessa de visitar a gente de lá... Mas, faz pouco, enxerguei bem: aquele não é seu mundo. Queria que você sentisse o que sinto naqueles campos, naquela praça. Queria que você fosse o orgulho da família lá. Queria exibir você para o meu mundo. Mas isso não te faria feliz, meu filho. Você quer exibir seu mundo pra mim, não vai dar certo. Entendi que o que é pequeno pra você é meu universo inteiro, mas também entendi que tudo que você acha de maior importância não faz falta nenhuma pra mim. Vai querido, quero que você tenha tudo o mesmo que eu: a sensação de fazer parte do mundo."

O neto foi embora. Achou lá uma moça que foi morar com ele.

A velhinha voltou para Andorinhas, conseguiu uma moça que fazia companhia e cuidava bem dela.

Ela foi a Londres para o casamento do neto e o bisnetinho inglês veio ao enterro dela.

Um mundo pleno, conquistado. Feliz por seguir seu próprio caminho.